Três territórios na América do Sul escapam completamente da divisão entre português e espanhol que marcou a colonização do continente: as Guianas, onde se falam inglês, holandês e francês. Segundo análise histórica do canal Desenhando e Explicando, a razão para essa exceção remonta ao Tratado de Tordesilhas, de 1494, que dividiu formalmente o continente entre Portugal e Espanha, mas nunca foi efetivamente ocupado nessa região específica.
O litoral das Guianas era considerado pouco atrativo pelos colonizadores ibéricos: águas rasas e barrentas dificultavam a navegação, a mata fechada e o calor tornavam a ocupação difícil, e, principalmente, a região não abrigava impérios organizados com ouro acumulado, como os astecas e incas encontrados por espanhóis no México e no Peru. Os portugueses, por sua vez, concentravam esforços em uma costa mais promissora ao sul, voltada à extração de pau-brasil e, posteriormente, ao cultivo de cana-de-açúcar. Esse desinteresse ibérico abriu espaço para que Inglaterra, Holanda e França ocupassem a região, atraídas em parte pela lenda do Eldorado, cidade de ouro que, segundo a crença popular europeia da época, estaria escondida no interior das Guianas.
Os franceses fundaram Caiena em 1643. Em 1763, o rei Luís XV enviou milhares de colonos à Guiana Francesa com promessa de riqueza, mas a maioria morreu de doenças tropicais em pouco mais de um ano. A colonização que de fato se consolidou na região baseou-se no cultivo de açúcar, café e cacau, com mão de obra escravizada trazida da África, concentrada na faixa litorânea, enquanto o interior florestal permaneceu ocupado por povos indígenas e quilombos.
Um dos episódios mais significativos dessa história ocorreu em 1667, com o Tratado de Breda, que encerrou um conflito entre ingleses e holandeses. Pelo acordo, os holandeses ficaram com o Suriname, então uma colônia produtora de açúcar considerada altamente lucrativa, enquanto os ingleses receberam em troca um pequeno posto comercial holandês na América do Norte: a colônia de Nova Amsterdã, que se tornaria a atual cidade de Nova York. Na lógica econômica da época, a troca fazia sentido, já que o açúcar era uma das commodities mais valiosas do mundo, enquanto Manhattan era um entreposto comercial de pouca relevância.
A partir desse acordo, o mapa das três Guianas foi essencialmente definido. A Guiana, sob domínio holandês e depois britânico a partir de 1814, tornou-se independente em 1966. O fim da escravidão levou os britânicos a trazer trabalhadores da Índia para as plantações, o que explica a forte presença de população de origem indiana no país até hoje. O Suriname, colônia holandesa, seguiu padrão semelhante, recebendo trabalhadores da Índia e da Indonésia após a abolição da escravidão em 1863, tornando-se independente em 1975 e permanecendo o único país das Américas com o holandês como idioma oficial.
Já a Guiana Francesa nunca se tornou independente. A partir de 1852, o território foi transformado em colônia penal francesa, recebendo condenados e presos políticos até 1938, incluindo a famosa Ilha do Diabo. Em 1946, em vez de se tornar um país independente, a Guiana Francesa foi elevada à condição de departamento ultramarino da França, com direito a representação no parlamento francês e cidadania francesa para sua população — hoje é o único território da União Europeia localizado no continente sul-americano, com fronteira de 730 quilômetros com o Brasil, a maior fronteira terrestre da França no mundo.
A disputa territorial entre a Guiana Francesa e o Brasil pela região que hoje corresponde ao Amapá só foi resolvida em 1900, por arbitragem internacional favorável a Portugal, com base no Tratado de Utrecht de 1713. Nas últimas décadas, a região passou por transformação econômica expressiva: a descoberta de petróleo na costa da Guiana em 2015 pela ExxonMobil, com produção comercial iniciada em 2019, tornou o país um dos maiores produtores de petróleo per capita do mundo, com reservas estimadas em cerca de 11 bilhões de barris, enquanto a Guiana Francesa abriga o Centro Espacial de Kourou, base de lançamento de foguetes da Agência Espacial Europeia, responsável por cerca de 25% do PIB do território, favorecida pela proximidade com a linha do Equador, que oferece impulso extra de velocidade aos lançamentos espaciais.