Diferentemente do padrão de construção mais comum no Brasil, as casas residenciais nos Estados Unidos raramente utilizam laje de concreto entre os andares ou no teto, optando por um sistema de treliças de madeira conhecido como wood frame. A explicação para essa diferença estrutural envolve custo, peso e comportamento do material diante de fenômenos naturais como furacões e terremotos, segundo vídeo do corretor de imóveis brasileiro radicado em Orlando, Ricardo Molina.
O processo de construção típico começa com uma fundação chamada radier, uma espécie de laje de concreto de 20 a 30 centímetros de espessura assentada sobre areia compactada. Sobre essa base, o primeiro andar é erguido em bloco estrutural, reforçado por colunas de concreto a cada 2,5 metros aproximadamente e vigas pré-moldadas nos vãos maiores, como o da porta da garagem. No topo dessa estrutura de blocos, uma cinta de concreto recebe tirantes de aço galvanizado já embutidos, que servem para fixar as estruturas de madeira que compõem o restante da casa.
A partir daí, as paredes internas e o restante da estrutura são erguidos em wood frame, com madeiras espaçadas a cada 16 polegadas, formando um paliteiro que depois é fechado com placas de drywall. É nesse ponto que a ausência de laje se torna mais evidente: o forro entre os andares, ou entre o último andar e o telhado, é sustentado por treliças de madeira, calculadas sob medida e fornecidas já prontas por empresas especializadas em madeira estrutural, o que agiliza bastante o tempo de montagem da casa.
Segundo o vídeo, essa característica construtiva tem uma implicação de segurança pouco conhecida por brasileiros: em casas de um andar, o espaço entre o forro de drywall e o telhado recebe apenas isolamento térmico, sem capacidade estrutural para suportar o peso de uma pessoa caminhando por cima. O vídeo cita o caso do apresentador brasileiro Gugu Liberato, morto em 2019 após cair de uma altura considerável dentro de sua própria casa nos Estados Unidos, como exemplo de acidente associado à falta de familiaridade com esse tipo de estrutura, já que o piso do sótão, nesses casos, não tem a resistência de uma laje de concreto tradicional. Em casas com mais de um andar, uma camada adicional de compensado de madeira é instalada sobre o forro justamente para suportar a circulação de pessoas.
Sobre a possibilidade de construir com laje de concreto nos Estados Unidos, o vídeo explica que a opção existe, mas costuma custar mais caro, não apenas pelo material em si, mas principalmente pelo reforço necessário na fundação para suportar o peso adicional, já que o modelo padrão de radier não foi dimensionado para cargas tão altas.
Quanto à resistência a furacões, o vídeo argumenta que a estrutura de madeira, quando construída conforme o código de obras atual, já é calculada para resistir a furacões de categoria 5, e que a maior parte dos danos observados em casas atingidas por furacões na costa da Flórida historicamente vem da água, e não do vento, além de envolver, em boa parte dos casos, construções mais antigas, anteriores às exigências atuais do código de obras.
Já em relação a terremotos, mais comuns em regiões como a Califórnia, o vídeo aponta uma vantagem adicional da estrutura de madeira sobre o concreto: por ser mais flexível, ela tende a oscilar e se ajustar durante o abalo, reduzindo o risco de colapso completo sobre os moradores, diferentemente de uma laje de concreto, que, ao romper, pode causar danos mais graves justamente pelo peso da própria estrutura.
O espaço criado entre o forro e o telhado, chamado de "attic" nos Estados Unidos — equivalente ao sótão no Brasil — também cumpre função de isolamento térmico, abrigando parte da tubulação de ar-condicionado e da fiação elétrica da casa, além de ajudar a reduzir o consumo de energia do sistema de climatização central, item considerado essencial na maioria das residências americanas devido ao calor intenso registrado em estados como a Flórida ao longo do ano.