Soldados alemães que enfrentaram a Força Expedicionária Brasileira na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, passaram a temer a infantaria brasileira mais do que as tropas americanas e britânicas que já conheciam de outras frentes de combate. A avaliação aparece em relatos de prisioneiros alemães capturados ao longo da campanha, que descreviam os "pracinhas" — apelido dado aos soldados da FEB — como uma força teimosa, disposta a avançar mesmo sob fogo pesado, em contraste com o ceticismo inicial que cercava a participação do Brasil no conflito.
A entrada do Brasil na guerra, em 1942, após o afundamento de navios mercantes brasileiros por submarinos do Eixo, foi recebida com desdém por parte de oficiais alemães e italianos, que enxergavam o país como um aliado secundário, sem tradição em campanhas militares fora de seu território. A frase "mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra", até então uma piada popular sobre a improbabilidade dessa participação, deu origem ao símbolo adotado pela FEB: uma cobra fumando um cachimbo, estampada no uniforme dos soldados brasileiros enviados à Itália.
A força expedicionária, formada majoritariamente por civis convocados às pressas, enfrentou dificuldades logísticas e de equipamento já na formação das tropas. A travessia do Atlântico e a chegada a Nápoles, em uma Itália devastada pela guerra, marcaram o primeiro contato de muitos pracinhas com a realidade do conflito, distante da imagem simplificada que tinham antes de embarcar.
O batismo de fogo mais decisivo da FEB ocorreu em Monte Castelo, uma elevação estratégica na região dos Apeninos que dominava estradas e vales próximos, e que já havia resistido a tentativas anteriores de outras tropas aliadas. As primeiras investidas brasileiras contra a posição alemã, fortemente fortificada, resultaram em baixas significativas, mas a insistência em repetidos ataques, mesmo após recuos, começou a alterar a percepção alemã sobre a capacidade de combate da tropa brasileira.
Em abril de 1945, a FEB recebeu a missão de tomar Montese, uma cidade fortificada cercada de colinas que controlava estradas vitais para a retirada das tropas alemãs na região. O combate se transformou em confronto casa a casa, com granadas lançadas em janelas e avanços cautelosos pelas ruas estreitas da cidade. Relatos posteriores de prisioneiros alemães descreveram surpresa com a disposição dos brasileiros de avançar em situações consideradas de alto risco, mesmo diante de perdas entre seus próprios líderes de combate.
Após a conquista de Montese, a FEB participou do cerco que resultou na rendição de milhares de soldados do Eixo nas regiões de Collecchio e Fornovo di Taro, no Vale do Pó. A infantaria brasileira ocupou posições ao longo de estradas e pontes usadas pelas tropas alemãs em retirada, formando um anel que impediu a fuga de colunas inteiras de veículos e soldados. A rendição em massa que se seguiu incluiu oficiais, especialistas e unidades completas que haviam combatido anteriormente na França e na Rússia.
A campanha da FEB na Itália é registrada em relatórios de generais aliados e em depoimentos posteriores de oficiais alemães como um exemplo de uma tropa inicialmente subestimada que se adaptou rapidamente às condições de combate, passando de operações de defesa em terreno montanhoso para o fechamento de um cerco decisivo em poucos meses de campanha. O símbolo da cobra fumando, que nasceu como piada sobre a improbabilidade da participação brasileira na guerra, permanece hoje associado à memória histórica da Força Expedicionária Brasileira.
Historiadores apontam que a experiência da FEB na Itália teve impacto também na percepção internacional sobre a capacidade militar brasileira, em um contexto no qual o país não possuía tradição recente de participação em conflitos fora de suas fronteiras. A convivência com civis italianos ao longo da campanha, incluindo episódios de ajuda mútua registrados por sobreviventes, também é lembrada como parte relevante da memória construída em torno da atuação dos pracinhas na região.