A crise financeira de 2008, considerada a pior recessão global desde a Grande Depressão de 1929, teve origem em uma cadeia de fatores interligados que se acumularam ao longo de quase duas décadas no mercado imobiliário e financeiro dos Estados Unidos, segundo documentário do canal Curioso Mercado. O colapso, que atingiu seu ápice com a falência do banco de investimentos Lehman Brothers em setembro daquele ano, começou como um problema pontual do setor imobiliário americano antes de se transformar em uma crise financeira mundial.
O ponto de partida remonta ao início dos anos 2000, quando o Federal Reserve, banco central americano então presidido por Alan Greenspan, reduziu drasticamente as taxas de juros, de 6,25% para 1%, em resposta ao estouro da bolha das empresas de tecnologia e aos atentados de 11 de setembro de 2001. Essa política de juros baixos tornou o crédito mais barato e ajudou a expandir o mercado imobiliário e hipotecário do país.
Para financiar o volume crescente de hipotecas, o sistema financeiro americano recorreu a um mecanismo chamado securitização, no qual bancos transformavam hipotecas em títulos negociáveis, vendidos a investidores institucionais e fundos de pensão ao redor do mundo. Inicialmente restrito a compradores considerados financeiramente seguros, o sistema passou, com o tempo, a incorporar cada vez mais hipotecas do tipo "subprime", concedidas a compradores sem comprovação de renda ou capacidade real de pagamento.
Bancos passaram então a agrupar milhares dessas hipotecas em produtos financeiros conhecidos como CDOs, obrigações de dívida colateralizada, divididas em camadas de risco chamadas "tranches". As camadas consideradas mais seguras recebiam classificação máxima, "Triple A", das agências de classificação de risco, mesmo contendo parcelas significativas de hipotecas de alto risco misturadas a ativos mais seguros, o que mascarava o real nível de exposição desses papéis.
O crescimento do setor foi turbinado ainda pelas chamadas hipotecas de taxa ajustável, que ofereciam juros baixos nos primeiros anos, reajustados posteriormente conforme índices de mercado. Entre 2001 e 2006, o mercado de hipotecas americano movimentou em média US$ 3 trilhões por ano em novas operações, alimentando uma valorização contínua dos imóveis que, segundo especialistas como o economista Robert Shiller, já era considerada excessiva.
A partir de 2004, o Federal Reserve começou a elevar novamente os juros para conter a inflação, o que impactou diretamente os pagamentos das hipotecas de taxa ajustável. A inadimplência disparou, e os CDOs, antes vistos como investimentos seguros, revelaram-se repletos de hipotecas inadimplentes. As agências de classificação de risco, remuneradas pelos próprios bancos que emitiam esses produtos, foram apontadas como um dos elos que falharam nesse processo, já que tinham incentivo financeiro para atribuir notas altas a ativos de risco elevado.
O primeiro grande colapso institucional ocorreu em março de 2008, quando o banco Bear Stearns ficou sem liquidez e foi vendido ao J.P. Morgan Chase por um valor simbólico, em uma operação facilitada pelo Federal Reserve. Em setembro daquele ano, porém, o governo americano optou por não resgatar o Lehman Brothers, que decretou falência, um evento que transformou o que até então era visto como um problema pontual em uma crise financeira sistêmica global. Pouco depois, a seguradora AIG também precisou ser resgatada pelo governo americano, após acumular perdas bilionárias com a venda de contratos conhecidos como credit default swaps, uma espécie de seguro contra calote desses ativos securitizados.
O governo dos Estados Unidos criou um pacote de resgate de US$ 700 bilhões para estabilizar o sistema bancário, mas a crise já havia se espalhado pela economia real, provocando milhões de execuções hipotecárias e um forte aumento do desemprego no país e em outras economias globalmente conectadas ao sistema financeiro americano. Investidores como Michael Burry e o gestor de fundos John Paulson, que apostaram contra o mercado hipotecário comprando contratos de credit default swap antes do colapso, tornaram-se símbolos de quem lucrou bilhões de dólares prevendo a fragilidade do sistema, enquanto instituições financeiras tradicionais colapsavam ao seu redor.