Um novo capítulo da corrida pelo petróleo na costa Norte do Brasil pode estar apenas começando. A confirmação, nesta sexta-feira, de hidrocarbonetos no poço Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas, reacendeu comparações com a descoberta do pré-sal, feita em 2006, e com o boom recente registrado na costa da Guiana, vizinho brasileiro que se tornou um dos países com maior crescimento econômico do mundo depois de encontrar reservas gigantescas de petróleo na mesma formação geológica compartilhada com o litoral do Amapá.
O poço, perfurado pela Petrobras no bloco FZA-M-59, está localizado a 175 quilômetros da costa do Amapá, em lâmina d'água de 2.886 metros. A presidente da estatal, Magda Chambriard, classificou a descoberta como confirmação do otimismo da empresa em relação à chamada Margem Equatorial brasileira, faixa marítima que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte e que vinha sendo tratada, até então, mais como aposta estratégica do que como certeza geológica.
Por que a comparação com a Guiana faz sentido geologicamente
A Margem Equatorial brasileira compartilha características geológicas com a chamada Bacia de Guyana-Suriname, região que, na última década, transformou a Guiana em um dos maiores produtores de petróleo per capita do planeta, atraindo bilhões de dólares em investimentos de gigantes como ExxonMobil. Especialistas do setor de petróleo e gás já vinham apontando essa semelhança geológica havia anos como justificativa para o interesse crescente de empresas na costa Norte brasileira, mas até esta semana faltava uma confirmação prática de que o mesmo tipo de reserva poderia existir também do lado brasileiro da fronteira geológica.
O Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP) reforçou essa leitura ao afirmar, em nota, que a descoberta confirma que o Brasil tem perspectivas muito positivas para a produção de petróleo e gás natural em novas regiões do país, chamando a notícia de significativa não apenas pela identificação de hidrocarbonetos, mas por indicar a possibilidade concreta de exploração e produção em uma fronteira até agora pouco testada no extremo norte do território nacional.
O que ainda falta para a região repetir o sucesso do pré-sal
Apesar do entusiasmo, a distância entre uma descoberta exploratória e a produção em larga escala costuma ser de anos, não de meses. A Petrobras ainda não confirmou o volume de hidrocarbonetos encontrado no poço Morpho, etapa essencial para determinar se a descoberta é comercialmente viável. O processo até aqui seguiu o mesmo roteiro técnico usado em outras descobertas do gênero: identificação da presença de hidrocarbonetos por perfis elétricos e indicativos em rocha, seguida da continuidade da perfuração para avaliação exploratória mais completa.
Vale lembrar que a chegada da Petrobras à Foz do Amazonas foi historicamente marcada por debates sobre licenciamento ambiental, dado o entorno sensível da região amazônica e a proximidade com áreas de preservação. A empresa reforçou, na nota oficial sobre a descoberta, que as operações seguem "de forma segura e com respeito ao meio ambiente e às pessoas", reconhecendo implicitamente a sensibilidade do tema que cercou o início dos trabalhos de exploração na área nos últimos anos.
Mesmo que a confirmação completa do potencial da região ainda demande tempo, o simples fato de existir hidrocarbonetos comprovados no primeiro poço perfurado especificamente para esse fim já é tratado pelo mercado como um sinal relevante. Ao contrário de outras bacias sedimentares brasileiras que precisaram de décadas e dezenas de poços secos até a primeira descoberta comercial, a Margem Equatorial começa sua trajetória exploratória com um resultado positivo logo na largada, o que analistas do setor consideram um indicativo estatisticamente favorável, ainda que insuficiente, isoladamente, para garantir que a região se tornará, de fato, o novo pré-sal do Brasil.