Roberto Ardenghy, presidente do IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo), defendeu que os recursos obtidos com a exploração de petróleo no Brasil sejam utilizados estrategicamente para preparar municípios e estados para a transição energética. A declaração foi dada ao WW, no contexto das descobertas de poços de petróleo na Bacia do Foz do Amazonas, no Amapá — uma região que tem gerado expectativas econômicas, mas também acendido alertas ambientais.
A ideia traz uma contradição aparente: usar dinheiro do petróleo para acelerar a saída do petróleo. Para o setor, essa é a única forma de evitar que regiões produtoras entrem em colapso econômico quando as reservas se esgotarem. A lógica é a mesma de um país que explora uma mina de ouro e investe parte do lucro em infraestrutura e diversificação econômica — porque sabe que o ouro não dura para sempre.
Governança como palavra-chave
Para Ardenghy, a experiência internacional aponta para a necessidade de uma governança sólida no uso desses recursos. "Esses recursos que vêm do petróleo são recursos muito vultosos. Eles evidentemente podem ser aplicados para a tecnologia, para desenvolver melhor, melhorar ainda mais a segurança, a preocupação ambiental", afirmou. O executivo citou exemplos de países que usaram a renda de recursos naturais para financiar fundos soberanos e criar bases econômicas para o futuro, em vez de consumir tudo no presente.
No entanto, ele ressaltou que a perspectiva da transição energética precisa estar no centro das decisões de investimento. Não se trata apenas de extrair o máximo possível no menor tempo, mas de planejar o futuro com base na certeza de que o petróleo é um recurso finito. O desafio é equilibrar a necessidade de exploração com a urgência de uma matriz energética mais limpa — um dilema que o Brasil vai ter que enfrentar mais cedo ou mais tarde.
Recursos finitos exigem planejamento
Ardenghy alertou para o caráter esgotável do petróleo, comparando-o a um veio de ouro com prazo determinado de exploração. "Nós estamos falando de um recurso mineral. Por definição, ele tem um prazo para permanecer. É como se fosse um veio de ouro que você vai lá, explora, explora, e dali 25, 27 anos, ele acaba", disse, em uma analogia direta para ilustrar a urgência do planejamento.
A preocupação central, segundo ele, é garantir que os municípios e estados produtores estejam preparados para o momento em que esse recurso deixar de existir. A ideia é usar o dinheiro "fácil" do petróleo para diversificar a economia local enquanto ainda há tempo. Isso significa investir em novas vocações econômicas, infraestrutura, capacitação profissional e incentivo a setores alinhados à vocação de cada região — um plano que exige visão de longo prazo e disciplina fiscal.
"Quando acabar o petróleo, aquele dinheiro fácil, você tenha também o município preparado para superar esse momento", afirmou Ardenghy, reforçando que o objetivo não é apenas extrair, mas criar condições para que as localidades dependentes do petróleo possam se reinventar economicamente.
Lei existe, mas aplicação é o desafio
Ardenghy reconheceu que a legislação brasileira já contempla diretrizes nesse sentido, mas destacou que a aplicação prática ainda representa um obstáculo significativo. A lei estabelece regras para o uso dos royalties e participações especiais, mas na prática, a execução desses recursos muitas vezes não segue o planejamento ideal.
"A lei já é nesse sentido, ela tem definições e determinações nesse sentido. Mas, muitas vezes, o diabo mora nos detalhes. É no dia a dia do uso do recurso que estão, muitas vezes, os problemas", concluiu. A fala ecoa uma crítica recorrente na gestão pública: o Brasil tem boas leis, mas falha na execução. O desafio da transição energética, portanto, não é apenas técnico ou econômico — é também uma questão de governança e de capacidade de planejar o futuro em vez de apenas reagir ao presente.