A queda da patente da semaglutida no Brasil, princípio ativo por trás de medicamentos como Ozempic e Wegovy, deve abrir caminho para a produção de versões genéricas do remédio, ampliando o acesso a uma classe de fármacos que já provocou impactos econômicos mensuráveis em setores como alimentação, aviação e mercado de capitais ao redor do mundo, segundo análise do quadro Conta Aí, do canal Conta Azul.
A patente caiu no Brasil em dezembro de 2025, após decisão unânime do Supremo Tribunal Federal, mesmo diante de tentativas da fabricante Novo Nordisk de barrar a medida na Justiça. Laboratórios nacionais como EMS, Blau e União Química aguardam aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária para lançar suas versões genéricas, que podem custar até 60% menos que o produto original, hoje vendido no país por valores entre R$ 800 e mais de R$ 1.000, dependendo da dosagem.
Os medicamentos da classe GLP-1, sigla do hormônio glucagon-like peptide-1, atuam imitando um hormônio natural liberado pelo intestino após as refeições, responsável por sinalizar saciedade ao cérebro. A versão sintética criada pela indústria farmacêutica amplifica e prolonga esse efeito, levando pacientes a reduzir entre 40% e 50% do consumo calórico e perder de 10% a 20% do peso corporal, segundo dados citados na análise, praticamente o dobro do resultado observado em medicamentos emagrecedores anteriores.
Desenvolvido originalmente para tratar diabetes tipo 2, o medicamento passou a ser usado em larga escala para emagrecimento a partir de 2022, impulsionado pela exposição de celebridades e executivos que relataram resultados rápidos. Um estudo publicado em 2023, batizado de Select e conduzido com mais de 17 mil pacientes, mostrou que a semaglutida reduz o risco de infarto e AVC em pessoas obesas ou com sobrepeso, reposicionando o fármaco da esfera estética para a medicina preventiva.
O impacto econômico já é visível na Dinamarca, sede da fabricante Novo Nordisk. Em 2023, o Produto Interno Bruto dinamarquês cresceu 1,9%, quase quatro vezes a média da União Europeia no mesmo período, com mais da metade desse crescimento atribuído à indústria farmacêutica. O fenômeno levou o governo do país a publicar suas estatísticas econômicas com e sem o efeito da Novo Nordisk, que chegou a superar a Tesla em valor de mercado.
No setor de alimentos, o efeito também já é sentido. Segundo dados citados na análise, um levantamento apontou queda de cerca de 6% nas vendas de alimentos ultraprocessados nos últimos três anos, enquanto a consultoria KPMG estima perda anual de US$ 48 bilhões em receita da indústria alimentícia americana ao longo da próxima década. Redes como McDonald's já sinalizaram testes de cardápio com maior densidade proteica, e o preço da saca de açúcar cristal em São Paulo caiu 39% desde o início de 2025, atingindo o menor valor nominal desde 2020.
No Brasil, o país também ocupa papel central na cadeia produtiva desses medicamentos: a fábrica da Novo Nordisk em Montes Claros, Minas Gerais, produz cerca de 25% de toda a insulina fabricada globalmente pela empresa, e recebeu anúncio de investimento de US$ 6,4 bilhões em abril de 2025 para ampliação da unidade, com previsão de mais de 600 novos empregos.
A concorrência entre fabricantes também se intensificou. O Mounjaro, da Eli Lilly, com o princípio ativo tirzepatida, já respondia por 57% das vendas de medicamentos GLP-1 no Brasil no quarto trimestre de 2025, superando produtos à base de semaglutida. A Novo Nordisk viu suas ações caírem 18% em um único dia após divulgar projeção de queda de vendas para 2026.
A expectativa entre analistas é de que a queda de preços gerada pelos genéricos amplie o acesso a essa classe de medicamentos entre a população de menor renda, grupo historicamente mais afetado pela obesidade no Brasil, com potencial de reduzir casos de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e internações no Sistema Único de Saúde nos próximos anos.