Depois de quase três anos engavetado por decisão da Warner Bros., o filme "Coyote vs. Acme" finalmente estreia nos cinemas em agosto, chegando ao Brasil em 27 de agosto, um dia antes da abertura nos Estados Unidos. O híbrido de live-action e animação com os personagens clássicos dos Looney Tunes já recebeu as primeiras avaliações da crítica especializada, alcançando 100% de aprovação no Rotten Tomatoes com base nas primeiras resenhas publicadas.
Do cancelamento por motivos fiscais ao resgate por outra distribuidora
A história de "Coyote vs. Acme" se transformou em um dos episódios mais discutidos da indústria cinematográfica da última década. Anunciado em 2018 e filmado em 2022, o longa deveria estrear em 2023, mas a Warner Bros. Discovery decidiu cancelar definitivamente seu lançamento em novembro daquele ano, mesmo com a produção já concluída, para usar o projeto como abatimento fiscal estimado em US$ 30 milhões. A decisão seguiu a mesma lógica aplicada anteriormente aos filmes "Batgirl" e "Scoob! Holiday Haunt", ambos igualmente descartados pelo estúdio por motivos contábeis.
A medida provocou uma reação sem precedentes na indústria. Cineastas, roteiristas, atores e técnicos criticaram publicamente a prática de arquivar obras completas apenas para gerar benefício fiscal, e o debate chegou até a esfera política, com um congressista americano questionando publicamente a estratégia adotada pelos grandes estúdios. Diante da repercussão, a Warner Bros. recuou poucos dias depois do anúncio inicial e autorizou os produtores a buscar um novo distribuidor. Ainda assim, o filme permaneceu mais de um ano em um limbo, até que a distribuidora independente Ketchup Entertainment adquiriu os direitos mundiais em março de 2025, por cerca de US$ 50 milhões.
Um coiote, um advogado e uma ação judicial contra a Acme Corporation
Dirigido por Dave Green a partir de roteiro de Samy Burch, com história concebida por James Gunn, o filme reinventa a rivalidade clássica entre o Papa-Léguas e o Coiote com uma virada inusitada: depois de sucessivas falhas em produtos da Acme Corporation durante sua eterna perseguição ao pássaro, o coiote decide processar a fabricante. Will Forte interpreta o advogado que assume o caso, enquanto John Cena vive o executivo que enfrenta o processo do outro lado do tribunal, em uma trama que mistura humor pastelão, nostalgia dos desenhos clássicos e uma pitada de comentário sobre práticas empresariais questionáveis — ironia que não passou despercebida dado o próprio histórico do filme com a Warner Bros.
As primeiras críticas destacam a qualidade da combinação entre animação e live-action, com veículos especializados internacionais chegando a comparar o resultado ao clássico "Uma Cilada para Roger Rabbit", referência histórica do gênero lançada em 1988. Segundo essas avaliações, "Coyote vs. Acme" supera as expectativas geradas pela própria campanha de marketing, o que reforça a ironia de uma obra que quase nunca chegou ao público ter se tornado, segundo a crítica, um dos filmes mais divertidos do ano.
Para os fãs que acompanharam de perto a novela do cancelamento e resgate do projeto, a estreia nos cinemas representa mais do que o lançamento de um filme de comédia familiar: funciona como um raro exemplo de pressão pública revertendo uma decisão corporativa que parecia definitiva. No Brasil, o filme chega com distribuição da Paris Filmes, encerrando um capítulo que já havia se tornado símbolo de um modelo de contabilidade criticado por transformar obras completas em simples ferramentas de dedução fiscal, sem nunca chegarem às telas para as quais foram originalmente concebidas.
O caso também deixou marcas na relação entre a Warner Bros. e parte da comunidade criativa de Hollywood, com diversos profissionais chegando a cancelar reuniões previamente agendadas com o estúdio em protesto contra a decisão original de engavetar o projeto. Agora, com a estreia confirmada e a recepção inicial francamente positiva, "Coyote vs. Acme" se torna um estudo de caso sobre os limites das estratégias puramente financeiras dos grandes estúdios diante de obras que o público realmente quer assistir.