A atual crise das grandes redes de varejo brasileiras, com quedas de até 99% no valor das ações de empresas como Casas Bahia e Magazine Luiza, tem paralelo direto na história do setor no país, marcada por falências de gigantes que antes pareciam indestrutíveis. Um levantamento do canal Investidor Sincero, do economista Charles Wicz, resgatou casos de varejistas que dominaram o mercado brasileiro e depois desapareceram completamente.
O caso mais emblemático é o da Ricardo Eletro, que chegou a operar cerca de 1.200 lojas e empregar 28 mil pessoas no auge de sua expansão. A empresa nasceu de uma fusão entra a Insinuante e a Ricardo Eletro por volta de 2010, com campanhas publicitárias massivas em televisão e jornal, prometendo se tornar a "Amazon brasileira" da época. Anos depois, a rede foi à falência, deixando uma dívida bilionária, em um dos episódios mais conhecidos de colapso do varejo no Brasil.
Antes da Ricardo Eletro, a Mesbla já havia protagonizado uma trajetória semelhante. Fundada no Rio de Janeiro em 1912, a rede cresceu ao longo do século XX até se tornar, nos anos 1980, uma das maiores lojas de departamento do país, com quase 200 unidades vendendo desde roupas até produtos importados, retratados em campanhas publicitárias que associavam a experiência de compra a viagens internacionais. A empresa enfrentou dificuldades crescentes com o fim do período de alta inflação no Brasil, momento em que muitas varejistas descobriram que parte relevante de seu lucro vinha do próprio giro financeiro do dinheiro, e não exclusivamente da margem de venda dos produtos, o que expôs fragilidades estruturais quando a inflação foi controlada.
A Mappin, mais concentrada no mercado paulista, seguiu trajetória parecida: fundada nas primeiras décadas do século XX, ganhou força entre os anos 1930 e 1950 e se manteve relevante até próximo dos anos 2000, quando teve a falência formalmente decretada em 1999. A Arapuã, outra rede lembrada pela análise, também fez parte desse grupo de varejistas tradicionais que não sobreviveram às mudanças estruturais da economia brasileira ao longo das décadas seguintes, assim como redes de supermercado da época, como Casas da Banha e Disco, também citadas como exemplos de negócios que dominaram o varejo carioca e depois deixaram de existir.
Segundo a análise, o padrão que se repete nesses casos não é simplesmente "todo varejo quebra", mas sim que modelos de negócio que funcionaram bem em um determinado contexto econômico — como o período de inflação alta ou o boom de crédito das décadas de 1980 e 1990 — deixam de fazer sentido quando as condições macroeconômicas mudam, e empresas que não se adaptam a tempo acabam sucumbindo, mesmo depois de décadas de domínio de mercado.
A comparação com o cenário atual reforça esse argumento: assim como a Ricardo Eletro vendia essencialmente os mesmos produtos que a Magazine Luiza e a Casas Bahia, sem diferenciação relevante de serviço, a atual geração de varejistas tradicionais enfrenta concorrência crescente de plataformas internacionais como Amazon, Mercado Livre, Shopee, Shein e Temu, que conseguiram construir modelos de negócio mais eficientes na geração de tráfego digital e diversificação de fontes de receita.
A análise conclui que conhecer esses casos históricos ajuda a entender que o colapso de uma grande varejista brasileira não é um fenômeno novo nem exclusivo do momento econômico atual, mas parte de um ciclo recorrente em que empresas que crescem rapidamente durante períodos favoráveis da economia enfrentam dificuldade para se reinventar quando o cenário muda, um padrão que se repete desde a Mesbla e a Mappin, passando pela Ricardo Eletro, até o momento atual vivido por Magazine Luiza, Casas Bahia e outras redes tradicionais do varejo nacional.