Sexta-feira, 14/08/2026
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Economia

Ações da Magalu caem 97% em 5 anos em meio à crise do varejo brasileiro

Casas Bahia recua 99% e Renner cai 63% no mesmo período. Juros altos, endividamento das famílias e concorrência de Amazon, Shopee e Shein formam o que analista chama de 'tempestade perfeita' para o setor.

Ações da Magalu caem 97% em 5 anos em meio à crise do varejo brasileiro

As ações da Magazine Luiza acumulam queda de 97% nos últimos cinco anos, enquanto os papéis da Casas Bahia caíram 99% no mesmo período, segundo análise do canal Investidor Sincero, comandado pelo economista Charles Wicz. A Renner, historicamente mais estável, também recuou 63%, mesmo após a suspensão temporária da chamada "taxa das blusinhas" sobre importações de baixo valor, medida que teoricamente favoreceria o varejo nacional frente à concorrência estrangeira.

Segundo a análise, o problema estrutural não é exclusivo dessas três empresas, mas reflete um modelo de negócio baseado na venda de "commodities" — produtos padronizados como geladeiras, fogões e roupas básicas, disponíveis de forma praticamente idêntica em diferentes lojas e plataformas, sem diferenciação relevante de serviço agregado. Esse modelo, segundo o vídeo, funcionava bem em décadas anteriores, quando o giro do estoque e do crédito ao consumidor gerava receita significativa por si só, independentemente da margem de venda do produto em si.

A trajetória da Magazine Luiza ilustra o problema. Entre 2019 e 2020, a empresa foi a queridinha da bolsa brasileira, com valorização de 112% e 109% respectivamente, e chegou a ser chamada de "Amazon brasileira" ao se tornar a maior compradora de startups da América Latina no período, à frente até do próprio Mercado Livre. A companhia adquiriu 21 empresas em 18 meses, incluindo a varejista de eletrônicos para o público gamer Kabum, negócio avaliado em mais de R$ 3 bilhões que depois gerou disputa judicial com os antigos donos, que acusaram a Magalu de não ter quitado o valor total da compra. Segundo a análise, o erro não foi diversificar, mas a forma como a gestão conduziu as empresas adquiridas depois da compra.

O cenário macroeconômico agravou a situação. A taxa Selic, que estava na casa dos 2% ao ano em 2021, subiu de forma acelerada até patamares muito mais altos em 2022, elevando o custo do crédito para empresas e consumidores. A própria fundadora da Magazine Luiza, Luiza Trajano, chegou a criticar publicamente o nível de juros e defendeu mudanças na meta de inflação, apesar de ter integrado o conselho de assessoramento econômico do governo Lula, cujas medidas contribuíram, segundo a análise, para o cenário de juros elevados enfrentado posteriormente pelo próprio setor.

Do lado do consumidor, o endividamento das famílias brasileiras também pressiona as vendas do varejo tradicional. Segundo a análise, o consumidor médio hoje prioriza o pagamento de contas atrasadas, como energia elétrica, em vez de trocar eletrodomésticos ou roupas ainda funcionais, mesmo com sinais de desgaste. Esse comportamento reduz diretamente a demanda por produtos que sustentavam o faturamento das grandes redes de varejo físico e online do país.

A concorrência de plataformas internacionais completa o quadro. Segundo dados de tráfego citados na análise, sites como Mercado Livre, Shopee e Amazon aparecem entre os mais visitados do Brasil, enquanto plataformas de varejistas nacionais tradicionais não figuram nas primeiras posições dos rankings de acesso. Empresas como Shein e Temu também ganharam espaço relevante no consumo brasileiro nos últimos anos, atraindo clientes com preços mais baixos, viabilizados por estruturas de custo distintas das operações locais.

A análise conclui que o momento atual do varejo brasileiro é descrito como o mais desafiador já observado desde o início da cobertura do canal, em 2018, incluindo o período da pandemia. Mesmo com a Selic em trajetória de queda mais recente, a combinação entre empresas com gestão fragilizada, consumidores endividados e concorrência internacional mais eficiente em geração de tráfego digital forma o que a análise chama de "tempestade perfeita" para o setor.

Para o especialista, o padrão que se repete não é a inevitabilidade de quebra de qualquer varejista, mas sim a incapacidade de empresas específicas de se adaptarem a um novo modelo de consumo, mais dependente de tráfego digital eficiente e menos sustentado apenas pelo giro tradicional de crédito e estoque que garantiu a rentabilidade do setor em décadas anteriores.

Fonte: Investidor Sincero (Charles Wicz)
Perguntas frequentes
Quanto as ações da Magazine Luiza e da Casas Bahia caíram nos últimos anos?

Segundo a análise, a Magazine Luiza acumula queda de 97% em cinco anos, e a Casas Bahia, de 99% no mesmo período, enquanto a Renner recuou 63%.

Por que empresas como Magalu e Casas Bahia são consideradas vendedoras de 'commodities'?

Porque vendem produtos padronizados, como geladeiras e fogões, praticamente idênticos aos oferecidos por concorrentes e plataformas online, sem diferenciação relevante de serviço agregado, o que dificulta competir apenas pelo produto em si.

Como a alta da Selic afetou o varejo brasileiro?

A Selic saiu da casa dos 2% ao ano em 2021 para patamares muito mais altos em 2022, elevando o custo do crédito para empresas e consumidores, o que reduziu o consumo de bens duráveis e pressionou o endividamento das famílias.

Quais empresas estrangeiras são apontadas como concorrentes do varejo brasileiro?

Amazon, Mercado Livre, Shopee, Shein e Temu, que aparecem entre os sites mais visitados do Brasil e conseguiram construir modelos de negócio mais eficientes em geração de tráfego digital do que as varejistas nacionais tradicionais.