A Ucrânia realizou pelo menos 12 ataques com drones contra centros de distribuição da Wildberries, maior plataforma de comércio eletrônico da Rússia, em cidades como São Petersburgo, Tver, Krasnodar, Tambov, Voronej e na Crimeia ocupada, segundo análise do canal de geopolítica Professor HOC. O primeiro ataque, no mês passado, provocou um incêndio de grandes proporções em Moscou, com fumaça visível do espaço, e alguns dos ataques resultaram em mortes de funcionários que trabalhavam nos galpões atingidos.
O governo russo classificou os ataques como um crime de guerra contra infraestrutura civil. Segundo a análise, porém, a Wildberries deixou de operar apenas como um site de comércio comum ao longo da guerra: até poucos dias antes do primeiro ataque, a plataforma mantinha uma categoria oficial de catálogo chamada "Tudo para a SVO" — sigla russa para "operação militar especial", nome oficial usado pelo Kremlin para a invasão da Ucrânia —, reunindo mais de 200 mil anúncios de produtos, incluindo coletes balísticos, capacetes de combate, kits de medicina de batalha e componentes para drones militares, como suportes de lançamento e aletas de estabilização para granadas.
A categoria foi retirada do site após os primeiros ataques, mas os produtos continuaram disponíveis em outras seções da plataforma. Muitos desses anúncios carregam um selo de certificação informal, indicando terem sido "testados na SVO", com avaliações de compradores relatando o uso do equipamento em combate. Segundo a análise, esse sistema de avaliações da plataforma passou a funcionar, na prática, como um canal de retorno sobre o desempenho de equipamentos militares em campo, escrito por soldados no front.
A dependência do exército russo em relação a esse tipo de comércio é atribuída, segundo a análise, a falhas crônicas na logística oficial das Forças Armadas do país, incluindo escassez, atrasos e corrupção. Diante dessas falhas, voluntários e campanhas de arrecadação online passaram a suprir parte do equipamento usado por unidades no front, com soldados comprando itens do próprio bolso. Um levantamento citado no vídeo identificou cerca de mil anúncios de equipamento estritamente militar na plataforma, além de mais de 4.500 anúncios de itens de uso duplo, como visão noturna, torniquetes e roupas para clima extremo.
O governo russo não nega essa dinâmica: em dezembro de 2024, o ministro da Defesa da Rússia, Andrei Beloussov, anunciou publicamente a entrega de mais de 75 sistemas de drones e guerra eletrônica construídos por voluntários às Forças Armadas desde abril daquele ano, além de mais de 100 mil produtos adquiridos de pequenos fabricantes civis. O próprio presidente Vladimir Putin já elogiou publicamente esse tipo de produção paralela ao sistema oficial de defesa.
Segundo o direito internacional humanitário, um alvo civil pode se tornar um objetivo militar legítimo quando sua função oferece vantagem militar concreta a uma das partes do conflito, critério que a análise argumenta ser atendido pela Wildberries diante desse uso documentado da plataforma. A própria empresa teria sinalizado prever os ataques: semanas antes do primeiro deles, alterou seus termos de uso para incluir ataques de drones e mísseis como cláusula de força maior, isentando-se de indenizar vendedores por estoque destruído.
Até 22 de julho, a Ucrânia havia retirado de operação cerca de 8% da capacidade logística da Wildberries, com danos físicos estimados em cerca de US$ 400 milhões e prejuízo aos vendedores superior a US$ 2 bilhões em mercadorias destruídas. O comandante da força de drones da Ucrânia, Robert "Magyar" Brovdi, descreveu os ataques como parte de uma operação também psicológica, voltada a romper a percepção de normalidade cotidiana que grande parte da população russa mantinha em relação à guerra. Em resposta ao episódio, a mídia estatal russa evitou noticiar os ataques, e a polícia de Krasnodar deteve uma jovem de 19 anos após ela publicar um vídeo mostrando os danos em um dos galpões atingidos na cidade.