Carlos Roberto Ferreira Lopes, presidente da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), se entregou à Polícia Federal nesta quinta-feira, encerrando cerca de nove meses em que era considerado foragido. Ele estava com mandado de prisão em aberto desde novembro de 2025, quando foi deflagrada uma nova fase da Operação Sem Desconto, que investiga descontos indevidos aplicados a aposentadorias e pensões do INSS.
Segundo a Polícia Federal, a Conafer teria funcionado como uma organização criminosa estruturada em diferentes núcleos com divisão de tarefas. A corporação afirma ter identificado planilhas com registros de pagamento de propina, cruzadas com transferências bancárias realizadas pelos investigados, além de indícios de pagamentos a agentes públicos. O presidente da entidade foi indiciado por corrupção e organização criminosa.
Entre os demais nomes investigados no âmbito da operação estão o ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanuto, o ex-procurador-geral da autarquia, Virgílio Ribeiro, e o ex-diretor de benefícios do órgão, André Fideles. O caso está sob relatoria do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça e deve ser encaminhado à Procuradoria-Geral da República, que avaliará se há elementos suficientes para apresentar denúncia formal contra os investigados.
Segundo dados citados no programa Oeste Sem Filtro, que discutiu o caso, o esquema de descontos indevidos investigado pela Operação Sem Desconto teria movimentado cerca de R$ 6 bilhões entre 2019 e 2024, afetando entre 4,7 milhões e 6 milhões de aposentados e pensionistas em todo o país. Especificamente em relação à Conafer, uma perícia da Polícia Federal apontou desvio de cerca de R$ 640 milhões de recursos descontados de aposentados.
Este não é o primeiro episódio envolvendo Ferreira Lopes ligado ao caso. Durante depoimento à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, ele chegou a ser preso em flagrante por falso testemunho, após senadores identificarem contradições em seu relato. Na ocasião, ele deixou a prisão após pagar fiança de R$ 5 mil. O presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), que havia determinado a prisão em flagrante durante a comissão, comemorou publicamente a nova entrega de Ferreira Lopes à Polícia Federal, classificando o episódio como uma resposta da Justiça ao caso.
Comentaristas do programa levantaram a hipótese de que a entrega voluntária de Ferreira Lopes, sem que a polícia tivesse localizado seu paradeiro, poderia sinalizar intenção de negociar uma delação premiada. Essa possibilidade, no entanto, não foi confirmada oficialmente pela Polícia Federal ou pela Justiça até a divulgação do programa, tratando-se de uma interpretação dos apresentadores sobre o comportamento do investigado.
Durante a discussão, os comentaristas também mencionaram, de forma especulativa, a possibilidade de uma eventual delação vir a citar nomes próximos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, incluindo seu filho, conhecido publicamente como Lulinha, e seu irmão, conhecido como Frei Chico, associado à entidade Sindnap, também citada em outras frentes de apuração ligadas ao INSS. Até o momento da divulgação do programa, não havia confirmação de qualquer um desses nomes como investigados formalmente no processo específico envolvendo Ferreira Lopes e a Conafer.
O programa também mencionou, sem apresentar comprovação documental própria, um relato atribuído a um comerciante segundo o qual o deputado federal Alfredo Gaspar (União-AL), vice na chapa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República, teria contratado uma testemunha para prestar depoimento falso em outro caso, com parte do pagamento supostamente originada de uma conta ligada ao presidente da Conafer. Trata-se de uma acusação ainda não confirmada por investigação oficial até a publicação desta matéria, cabendo às autoridades competentes apurar sua veracidade.
Os comentaristas do programa também criticaram a decisão do Supremo Tribunal Federal de não prorrogar os trabalhos da CPMI do INSS, avaliação apresentada como opinião pessoal dos apresentadores, argumentando que a continuidade da comissão poderia ter revelado mais informações antes das eleições deste ano. Até a publicação desta reportagem, o STF não havia se manifestado sobre essas críticas específicas feitas durante o programa.