Um vídeo mostrando um suposto smartphone da Samsung em formato de coração viralizou nas redes sociais nos últimos dias, acumulando mais de 52 milhões de visualizações apenas no Instagram. O aparelho, no entanto, não existe: trata-se de uma criação inteiramente gerada por inteligência artificial, sem qualquer relação com produtos reais da fabricante sul-coreana.
Como o vídeo enganou milhões de pessoas nas redes
Na publicação viral, o suposto celular aparece exposto em uma loja da marca, com um conjunto de câmeras que lembra o design do Galaxy S26 Ultra, linha topo de gama real da Samsung. A qualidade visual do material é alta o suficiente para gerar dúvida genuína entre os usuários, que se dividiram nos comentários entre os que reconheciam se tratar de conteúdo artificial e os que acreditavam estar diante de um produto real ainda não anunciado oficialmente.
O vídeo ganhou força justamente durante a semana do Galaxy Unpacked, evento oficial em que a Samsung apresentou sua nova linha de smartphones dobráveis, o que ajudou a aumentar a credibilidade da peça artificial aos olhos de quem acompanhava as notícias sobre lançamentos da marca. O perfil responsável pela publicação não é novidade nesse tipo de conteúdo: já havia produzido anteriormente vídeos de formatos inusitados atribuídos a outras fabricantes, como a chinesa Vivo, além de um suposto modelo da Tesla, sempre seguindo a mesma fórmula de gerar produtos reais em versões visualmente extravagantes e nunca lançadas de fato.
Um sintoma de um problema maior: a dificuldade de distinguir o real do gerado por IA
O episódio expõe um desafio crescente para o público consumidor de tecnologia: a evolução das ferramentas de geração de vídeo por inteligência artificial tornou cada vez mais difícil diferenciar, a olho nu, o que é real do que foi inteiramente criado por um algoritmo. Diferente de montagens grosseiras do passado, os vídeos gerados atualmente por modelos avançados de IA reproduzem com boa fidelidade texturas, reflexos de luz, movimento de câmera e ambientação, elementos que costumavam ser os primeiros sinais de identificação de conteúdo falso.
Especialistas em verificação de informação recomendam alguns cuidados básicos diante de vídeos desse tipo antes de compartilhá-los: checar se a notícia sobre o produto aparece em fontes oficiais da marca ou em veículos de tecnologia estabelecidos, observar se o perfil que publicou o conteúdo tem histórico recorrente de vídeos semelhantes sobre outras marcas, e desconfiar de designs que fogem completamente dos padrões de engenharia conhecidos, como é o caso de um smartphone em formato de coração, inviável do ponto de vista de componentes internos, bateria e resistência estrutural.
Para a Samsung, o episódio não chega a representar um problema direto de imagem, já que o produto sequer existe e boa parte do público tende a compreender rapidamente se tratar de uma brincadeira ou conteúdo gerado artificialmente. Ainda assim, casos como esse ilustram como conteúdo de entretenimento gerado por IA pode se misturar facilmente ao noticiário real sobre lançamentos de tecnologia, especialmente em períodos de grande expectativa do público, como acontece sempre que uma fabricante realiza um evento de apresentação de novos produtos.
A tendência de vídeos de produtos fictícios gerados por inteligência artificial não deve diminuir tão cedo. Pelo contrário: à medida que as ferramentas de geração de imagem e vídeo se tornam mais acessíveis e realistas, esse tipo de conteúdo tende a se tornar ainda mais comum nas redes sociais, reforçando a importância de checar a procedência de qualquer novidade tecnológica antes de considerá-la real.
O caso também chama atenção para o próprio ritmo de consumo de notícias sobre tecnologia nas redes sociais, onde imagens e vídeos costumam circular muito mais rápido do que qualquer checagem de fato. Um conteúdo assim pode alcançar milhões de visualizações em poucos dias, muito antes de qualquer fabricante real ter a chance de esclarecer publicamente que o produto não existe. Para o usuário comum, a recomendação mais simples continua sendo a mesma de sempre: por mais convincente que um vídeo pareça, vale a pena buscar a confirmação em fontes oficiais antes de tratá-lo como uma novidade real de mercado.