O tempo médio diário de uso de telas no Brasil já teria alcançado cerca de 13 horas, segundo dados citados pela psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva durante entrevista ao JJ Podcast, apresentado por Joel Jota. A especialista, autora de mais de 3 milhões de livros vendidos sobre comportamento humano, afirmou que esse número representa um salto expressivo em relação a estimativas de poucos anos atrás, quando o Brasil já figurava entre os países com maior tempo de exposição a telas do mundo, atrás apenas da Índia.
Segundo Ana Beatriz, esse volume de horas conectadas tem impacto direto na quantidade e na qualidade do sono da população, considerado por ela um dos pilares mais importantes para a saúde mental e para a longevidade, à frente até de suplementação alimentar e prática de exercícios físicos. Para a psiquiatra, dormir de forma adequada deveria ser a prioridade número um de qualquer pessoa preocupada em melhorar sua saúde geral, e não um hábito relegado a segundo plano diante da correria do dia a dia.
A especialista relacionou o aumento do tempo de tela ao conceito popularizado em 2024 como "brain rot", termo em inglês usado para descrever o efeito do uso excessivo de telas, especialmente redes sociais, sobre o funcionamento cognitivo. Segundo ela, aplicativos e plataformas são projetados por profissionais especializados no funcionamento cerebral humano justamente para maximizar o tempo de uso, ativando sistemas de recompensa relacionados à liberação de dopamina, de forma semelhante a mecanismos observados em outros tipos de dependência comportamental.
Ana Beatriz fez questão de deixar claro que não é contrária ao uso de tecnologia ou de redes sociais, considerando-as ferramentas que, em princípio, podem ser positivas quando bem utilizadas. Segundo ela, o problema não está na tecnologia em si, mas na ausência de preparo das pessoas para usá-la de forma consciente, de maneira semelhante a dirigir um carro: uma boa ferramenta se torna perigosa nas mãos de quem não sabe utilizá-la corretamente.
A psiquiatra também comentou sobre o caso da Austrália, que neste ano proibiu o acesso a redes sociais para menores de 16 anos, decisão motivada, segundo relatos citados na entrevista, por uma queda expressiva no desempenho acadêmico de adolescentes no país. Segundo Ana Beatriz, medidas desse tipo, embora impopulares entre parte dos jovens, podem representar um caminho necessário diante dos efeitos observados do uso excessivo de telas sobre o desenvolvimento de crianças e adolescentes.
Para o público adulto, a especialista defendeu que a solução não passa necessariamente por abandonar as redes sociais, mas por adotar um uso mais consciente e seletivo do tempo de exposição às telas. Segundo ela, duas horas de uso não seletivo de redes sociais tendem a gerar uma sensação de superficialidade e perda de tempo, mas o mesmo período pode ser produtivo quando o conteúdo consumido é escolhido de forma criteriosa, com potencial de aprofundamento em temas de interesse genuíno.
A psiquiatra também abordou a relação entre uso excessivo de telas e diagnósticos equivocados de transtornos como o TDAH, afirmando que grande parte dos casos identificados atualmente na vida adulta estaria relacionada à privação de sono causada pelo tempo excessivo em frente a dispositivos eletrônicos, e não necessariamente a um transtorno de origem genética presente desde a infância.
Segundo Ana Beatriz, a ausência de educação estruturada sobre o funcionamento cerebral desde os primeiros anos escolares contribui para que crianças e adolescentes cheguem à vida adulta sem ferramentas básicas para lidar com o excesso de estímulos digitais disponíveis atualmente, tornando essa geração mais vulnerável aos efeitos do uso excessivo de telas do que gerações anteriores.
A especialista destacou ainda que o design das plataformas digitais tende a explorar o mesmo circuito cerebral de recompensa associado a outras formas de dependência comportamental, o que exigiria, em sua avaliação, maior regulação e educação preventiva desde a infância, e não apenas esforço individual de autocontrole na vida adulta.