A psiquiatra e escritora Ana Beatriz Barbosa Silva chamou atenção para um fenômeno que classifica como preocupante: cada vez mais pessoas se autointitulam portadoras de TDAH, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, sem qualquer diagnóstico profissional. Segundo a especialista, essa prática de autodiagnóstico, impulsionada por conteúdos sobre saúde mental nas redes sociais, tem levado a interpretações equivocadas sobre o próprio funcionamento cerebral.
Em entrevista ao podcast JJ Podcast, apresentado por Joel Jota, Ana Beatriz afirmou que a geração mais jovem é a que mais fala sobre saúde mental atualmente, mas, de forma irônica, também é a que menos coloca em prática hábitos que sustentam o bem-estar emocional. Para ela, o tema "saúde mental" se tornou um assunto popular nas redes sociais, mas o conhecimento superficial compartilhado online nem sempre reflete a complexidade real dos diagnósticos clínicos.
Segundo a psiquiatra, um critério fundamental para caracterizar o TDAH é a presença do transtorno desde a infância, associado a uma base genética. Quando os sintomas de desatenção ou inquietação surgem apenas na vida adulta, sem esse histórico desde os primeiros anos de vida, a explicação mais provável, segundo ela, não é o transtorno em si, mas um quadro de exaustão mental provocado por excesso de informação e de estímulos digitais.
A especialista relacionou diretamente esse fenômeno à privação de sono, hoje agravada pelo uso excessivo de telas. Segundo ela, muitos casos identificados como TDAH na vida adulta seriam, na realidade, consequência da chamada abstinência de sono, quando a pessoa não descansa o suficiente devido ao tempo excessivo dedicado a celulares e redes sociais, e passa a apresentar sintomas de desatenção e agitação semelhantes aos do transtorno.
Ana Beatriz também comentou sobre sua própria experiência pessoal com TDAH e dislexia na infância, relatando as dificuldades enfrentadas durante atividades escolares como ditados, quando associações de ideias tornavam difícil acompanhar o que era falado pela professora. Segundo ela, o distúrbio de aprendizagem foi corrigido ao longo do tempo por meio de estímulo constante, especialmente pelo apoio familiar.
A psiquiatra defendeu que, apesar das dificuldades específicas associadas ao TDAH, o cérebro humano tem capacidade de compensação. Ela usou a expressão "terra brasilis" para descrever esse tipo de funcionamento cerebral, no sentido de que, com o estímulo adequado, esse perfil pode se desenvolver em diferentes direções — mas defendeu que isso exige disciplina e prática constante, não apenas identificação com sintomas descritos na internet.
Sobre a busca por diagnósticos, Ana Beatriz recomendou que qualquer suspeita de TDAH seja avaliada por um profissional de saúde mental habilitado, considerando o histórico de vida completo da pessoa, e não apenas a identificação com conteúdos vistos em redes sociais. Segundo a especialista, esse tipo de autodiagnóstico à distância, sem avaliação clínica adequada, contribui para a banalização de condições que exigem acompanhamento profissional sério.
A entrevista também abordou o papel da inteligência artificial como ferramenta de apoio diagnóstico, quando usada por profissionais qualificados. Segundo Ana Beatriz, tecnologias desse tipo podem ajudar médicos a considerar hipóteses diagnósticas menos óbvias, mas nunca substituem a avaliação clínica humana, já que dependem inteiramente das informações fornecidas por um profissional treinado para observar e interpretar sinais clínicos.
A psiquiatra reforçou que o excesso de exposição a conteúdos superficiais sobre saúde mental nas redes sociais pode gerar confusão entre conhecimento teórico e prática clínica real. Segundo ela, "saber na teoria é fácil, fazer na prática tem uma diferença abissal", e destacou que informação sem aplicação prática não se converte automaticamente em conhecimento consolidado sobre o próprio funcionamento mental. A geração mais exposta a esse tipo de conteúdo, segundo ela, tende a confundir a familiaridade com termos técnicos de psicologia com a capacidade real de avaliar o próprio quadro clínico.